Pular para o conteúdo principal

Hamlet - William Shakespeare




A peça mais famosa de Shakespeare, além de ser um grande estudo sobre a vingança, é uma imensa reflexão sobre nossas primitivas dúvidas existenciais. A tragédia sanguinária engendrada pelo dramaturgo inglês, traz à baila um campo fértil para o desenvolvimento de dilemas psicológicos complexos que afligem boa parte dos personagens; o príncipe Hamlet, o mais importante deles, atormentado pelo fantasma do pai, desprezado amorosamente por Ofélia e incutido por um ódio nefando do tio, caminha entre o tênue limite da loucura e da lucidez; em longos monólogos, acompanhamos as reflexões, angústias, tormentos, dúvidas e agruras enfrentadas pelo protagonista da peça, que aos poucos é envolvido por um labiríntico torvelinho de dúbias sensações; para ele o mundo era injusto e a existência não fazia o menor sentido. Seu desencanto com a vida pode ser comprovada através desse desesperançoso, porém lucubrado dizer:

Ultimamente – e por que, não sei – perdi toda a alegria, abandonei até meus exercícios, e tudo pesa de tal forma em meu espírito, que a Terra, essa estrutura admirável, me parece um promontório estéril; esse maravilhoso dossel que nos envolve, o ar, olhem só, o esplêndido firmamento sobre nós, majestoso teto incrustado com chispas de fogo dourado, ah, para mim é apenas uma aglomeração de vapores fétidos, pestilentos. Que obra-prima é o homem! Como é nobre em sua razão! Que capacidade infinita! Como é preciso e bem feito em forma e movimento! Um anjo na ação! Um deus no entendimento, paradigma dos animais, maravilha do mundo. Contudo, pra mim, é apenas a quintessência do pó. O homem não me satisfaz...

No primeiro ato da peça, Hamlet, acompanhado dos amigos Horácio, Bernardo e Marcelo, encontra o fantasma do pai; este o revela uma pérfida verdade: sua morte não tinha sido natural, Cláudio, seu irmão, havia-o envenenado, não apenas para usurpar seu trono, mas, também, para desposar sua própria esposa. De fato, dias após o estranho acontecimento, a corte celebrava a união da mãe de Hamlet, Gertrudes, com seu tio. Abatido por um lancinante desespero, nosso herói promete vingança, no entanto, antes de por em prática sua insuflada resolução, decide comprovar a veracidade das nebulosas confidências de seu pai. A chegada de uma trupe de atores à corte de Elsinor seria a oportunidade perfeita para Hamlet comprovar ou não suas suspeitas. O príncipe escreve uma peça baseada nos supostos eventos narrados pelo fantasma, pede aos atores que a encene, promovendo um grande evento na presença de toda a realeza, entre eles, o rei Cláudio e rainha Gertrudes. Durante o espetáculo, o jovem protagonista perscruta em minucias as expressões e reações de seu tio; no clímax da peça, quando um dos personagens envenena o rei para roubar o trono, Cláudio passa mal, fornecendo, dessarte, a prova irrefutável que evidenciava sua perniciosa conduta.

Transtornado, Hamlet confidência à mãe o segredo recém-descoberto; esta, achando se tratar de um delírio, tenta acalmar o filho que passa a acusá-la de promiscuidade e desrespeito à imagem do antigo soberano dinamarquês. Durante a cena, Polônio, cortesão, pai de Ofélia e um dos maiores bajuladores da autoridade real, ouvia atrás da tapeçaria a quizília linguística que se transformava o colóquio de mãe e filho. Hamlet, cego de ódio, ameaçava ferir Gertrudes com seu florim, ela, ao gritar, é socorrida por Polônio, no entanto, este acaba sendo atingido mortalmente pelos golpes do príncipe, que, julgando ter matado o tio, se surpreende ao notar que retirara a vida do pai da sua inexpugnável amada.

Em paralelo à trama de vingança, acompanhamos o envolvimento amoroso frustrado entre Hamlet e Ofélia. Para o príncipe a filha de Polônio era sublime, desprovida do mais insignificante defeito; contudo o amor dos dois encontrava-se em uma dimensão irrealizável; pois o herdeiro do trono se uniria, em consonância aos costumes da época, como é provável de supor, matrimonialmente por conveniência, buscando algum acordo com outros Estados soberanos; portanto, Ofélia reconhecia a impossibilidade de concretização das promessas poéticas e apaixonadas pronunciadas por nosso herói, ela, incutida por seu pai e por seu irmão Laertes, considerava os elogios e galanteios de Hamlet sub-reptícios, obliterados pela falsidade de um sedutor ímpio e lascivo. Com o peso insuportável da perda e da negação de um amor achincalhando seus ombros, Hamlet desenvolve drásticas dúvidas existenciais; seria a vida um fardo necessário a ser suportado? Eis o ápice da peça, e o monólogo que imortalizou o personagem:

Ser ou não ser - eis a questão.
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz.
Ou pegar em armas contra o mar de angústias -
E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;
Só isso. E como o sono – dizem – extinguir
Dores do coração e as mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer – dormir -
Dormir! Talvez sonhar. Aí esta o obstáculo!
Os sonhos que hão de vir no sono da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria os açoites e insultos do mundo,
A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,
As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,
A prepotência do mando, e o achincalhe
Que o mérito paciente recebe dos inúteis,
Podendo ele próprio, encontrar seu repouso
Com um simples punhal? Quem aguentaria fardos,
Gemendo e suando numa vida servil,
Senão porque o terror de alguma coisa após a morte -
O país não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade,
Nos faz preferir e suportar os males que já temos,
A fugirmos para outros que desconhecemos?
E assim a reflexão faz de todos nós covardes.
E assim o matiz natural da decisão
Se transforma no doentio pálido do pensamento.
E empreitadas de vigor e coragem,
Refletidas demais, saem de seu caminho,
Perdem o nome de ação.

Imortal, atemporal, inatingível e inigualável são alguns adjetivos que poderiam caracterizar o autor dessa sequência de frase definidoras de toda a angústia e incerteza do espírito humano. Por que a vida? Em tempos dos inesgotáveis e repetitivos livros de alto ajuda, as pessimistas palavras de Hamlet, por serem violentamente verdadeiras, parecem trazer muito mais conforto às compungidas almas desesperadas, do que as tolas e ingênuas palavras de incentivo dos novos charlatões da literatura. Voltemos aos clássicos, pois o mundo não é só felicidade e beleza, o podre sobrevive e luta por mais espaço em nosso âmago. Talvez o certo seja aprender os segredos e mistérios dos miasma que decompõem a existência, quem sabe assim compreenderemos melhor nossas imensuráveis frustrações.

Bem, após a inevitável digressão, devo voltar ao enredo da peça. Com a morte de Polônio, Hamlet é enviado à Inglaterra, Ofélia, desesperada, se afoga no lago, e Laertes, julgando ter sido o pai vítima das artimanhas malignas do rei, ameaça invadir a corte e destronar a autoridade real. Cláudio, esclarecendo o incidente, contorna a situação; joga a culpa das duas mortes nos ombros do sobrinho. Com astúcia, nosso herói consegue retornar, em segredo, à Elsinor; reaparece no funeral de Ofélia, onde é desafiado por Laertes. No quinto e último ato, muitas reviravoltas transformam o duelo dos dois jovens em uma inesperada sequência de mortes e traições; todos descobrem o insidioso caráter do rei; Gertrudes morre envenenada, Hamlet mata Laertes e seu tio, morrendo em seguida abatido pelo veneno fraudulentamente depositado por Cláudio na lâmina de seu adversário. A peça, assim como a vida, termina em sangue.

Apesar de dramática, temos, em alguns momentos, cenas do mais refinado humor negro. Em uma delas, Hamlet, que havia escondido o corpo de Polônio após matá-lo, ao ser indagado sobre a localização do defunto, profere estas agudas, cínicas e hilárias palavras:

Na ceia. Mas não está comendo. Está sendo comido. Um determinado congresso de vermes políticos se interessou por ele. Nesses momento, o verme é o único imperador. Nós engordamos todos os outros seres pra que nos engordem; e engordamos pra engordar as larvas. O rei obeso e o mendigo esquálido são apenas variações de um menu – dois pratos , mas na mesma mesa; isso é tudo.

Se pudesse dar um conselho aos meus virtuais leitores, diria para lerem Shakespeare o mais rápido possível, eu mesmo sinto que perdi muito tempo postergando a leitura do fantástico dramaturgo inglês. Após quatro séculos a dúvida permanece e provavelmente jamais será respondida. Ser ou não ser? Como responder a complexa pergunta se nunca alcançaremos racionalmente a dimensão da não existência. Viver machuca, abre feridas, flagela o corpo, mas não viver pode ser uma (não) experiência ainda pior. E se me disserem agora que o mundo é belo, cheio de cores e alegrias ou que devemos sorrir para a vida, cantando e dançando em homenagem à inefável natureza ou à indescritível criação divina, passarei a acreditar mais no “não ser”, pois lá, certamente, não haverá tamanha hipocrisia.  

Avaliação: 9,5/10
FG

Comentários

  1. Ser ou não ser... Vivemos esperando dias melhores pra sempre... dias melhores pra sempre...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. E se nada acontecer, onde encaixaremos os dias melhores?

      Excluir
  2. “Na vocação para a vida está incluído o amor, inútil disfarçar, amamos a vida. E lutamos por ela dentro e fora de nós mesmos. Principalmente fora, que é preciso um peito de ferro para enfrentar essa luta na qual entra não só o fervor, mas uma certa dose de cólera, fervor e cólera. Não cortaremos os pulsos, ao contrário, costuraremos com linha dupla todas as feridas abertas.” Lygia Fagundes

    ResponderExcluir

Postar um comentário