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Aventuras de Ravi - XIX

Ao ver Giallo chegar, desceu a montanha e bateu a porta dos cabeçudos. Nesta altura o amarelo já estava à parte do ocorrido. Abriu a porta, e deixou que o garoto entrasse. Em sorrisos, disse chistoso: "Meu amigo, vejo que ainda nos faz companhia. Queria te lembrar que nosso acordo ainda está de pé. Se disseres onde encontrou a flauta, te levaremos pra casa. Hoje mesmo conversei com um ancião na cidade, um antigo afeto do meu pai. O Senhor Green, exímio viajante, conhece muito bem as localidades mais longínquas. Disse que para chegar a França, a bela França, precisa atravessar o deserto de gelo que fica a oeste das perigosas terras da feiticeira Kundrum. O caminho até lá é absconso. Eu diria que poucos ousariam entrar no território negro da feiticeira; no entanto, o nobre Senhor Green conhece criaturas dispostas a auxiliá-lo. Se me deres a informação correta, arranjarei os meios para que possa voltar pra casa em segurança."  "Feiticeira? Um andarilho me falou sob...

Aventuras de Ravi - XVIII

O cabeçudo azul conversou com Ravi com consistência objetiva, revelando cada detalhe da cultura cogumelo com teor lógico e matemático. Em pouco tempo o menino aprendeu muito sobre aquela sociedade tão incomum. O azul, que se chamava Bleu, mostrou-se bastante sensível, e extraordinariamente compreensível com o estrangeiro. Explicou como funcionava a estruturação social da sua comunidade e como cada cor desempenhava sua função. Os cogumelos tinham diversas tonalidades. Existiam os roxos, violetas, amarelos, verdes, marrons, vermelhos, azuis, laranjas e brancos; além dos híbridos, que eram aqueles que possuíam pares de cores alternadas. Para estes últimos, muito raros, o sanatório ou a morte prematura era bastante comum, de forma que não recebiam assistência e não tinham suas habilidades reconhecidas pelo estrato social. Por serem raros, a cada geração apenas meia dúzia chegava à vida autônoma, fora dos substratos, não participavam da vida pública e poucos se interessavam por eles. A...

Aventuras de Ravi - XVII

Os irmãos viviam naquela casa de alvenaria a muitos anos. Foi um presente que receberam de guerreiros do norte. Nunca souberam ao certo por que um povo tão diferente havia sido generoso com eles. Diziam as más línguas que o pai dos cabeçudos havia enfeitiçado os guerreiros, usando bálsamos dos mais diversos cheiros, para que eles se tornassem escravos. Cabeçudo pai era um grande conhecedor dos fungos e das suas propriedades mágicas, e no imaginário popular, teria habilidade, técnica e astúcia para controlar qualquer criatura. Quando jovem foi um curandeiro de prestígio. Muitos acreditavam que ele falava com os deuses e que suas receitas eram de ordem divina. Já no fim da vida seus filhos nasceram dos descalabros do seu corpo depositados num vetusto tronco podre que ornamentava a sala. Os cabeçudos eram cogumelos, geralmente nasciam de partes em decomposição de outros cogumelos mais velhos. Todos eram assexuados, dessa forma a ideia de família, com pai, mãe e filhos, de fácil acepç...

Aventuras de Ravi - XVI

Ravi viu seu amigo Colossos se perder nas profundezas do deserto. Guardou a flauta junto à sua parca bagagem e se encaminhou à casinha. A chaminé expelia bastante fumaça rosa, seus habitantes deveriam estar cozinhando ou esquentando algo no fogo. Diante da construção, se anunciou: "Tem alguém em casa; por favor, preciso de abrigo". Em instantes três homenzinhos estranhos apareceram. Tinha o tamanho de Ravi, mas seus corpos eram roliços e cada um apresentava uma cabeçorra de cores distintas, amarela, vermelha e azul. O homenzinho de cabeça vermelha, segurando um grande machado e com uma carranca de botar medo, foi o primeiro a se aproximar, e com voz rouca falou: " Quem é você? O que faz aqui? Por que invadiu nossa propriedade? Vá embora, ou terá que enfrentar meu machado." "Eu vim em paz. Estou perdido e preciso de ajuda para retornar à minha casa." O amarelo, um pouco mais distante, caminhou até o vermelho, pegou o machado de suas mãos com ge...

Aventuras de Ravi - XV

Philippe, ao presenciar o parto, sentiu novamente a mesma sensação de impotência que havia vivenciado diante dos milicianos que invadiram a aldeia congolesa. Morte e vida pareciam se integrar num momento improvável de prazer e dor. Seus pensamentos foram reconduzidos à capela em que a família Bongolê, diante da infâmia humana, se aviltara em perversão e sangue. Não conteve as lágrimas, não conteve os ânimos, não conteve o sofrimento. Naquele instante, Li, depurada pelo espírito do nascimento, voltou a perceber o ambiente. Suas atenções se voltaram para a moita de bambu, onde o homem rinoceronte, agachado, tentava se esconder. A princípio julgou que os ruídos eram de algum animal, mas logo ouviu os sons de pranto. Philippe notou que os olhos da chinesa já denunciavam sua presença. Acabrunhado, voltou à mansarda a passos sonoros. A criança, até então tranquila nos braços da mãe, começou chorar; o choro anunciava seu primeiro contato com as frustrações do novo mundo. Ao lado de A...

A Nuvem Azul - I

Capítulo I. Uma Viagem Inesperada O menino Ravi, herói dessa e de muitas outras aventuras, antes de ser levado ao Mundo da Nuvem Azul, vivia acossado pela solidão e pelo frio de sua velha mansarda no norte da França. Ele era filho único de Philippe, um velho e cansado missionário que lesionava teologia a alunos secundaristas. Desde o nascimento do filho, interrompera sua vida nômade, fixando-se naquela terra de atmosfera álgida e inóspita; porém ainda tinha o intuito de prosseguir em suas errantes viagens, pois acreditava na linguagem da fé cristã e no poder curativo de Deus. Seu filho, no entanto, até então alheio às misteriosas migrações de seu pai, ainda não vislumbrava qualquer possibilidade de deixar seu local de origem; talvez por isso sonhava, perdido na imaginação, com lugares cálidos, paisagens ensolaradas e reconfortantes. Certo dia, como se houvesse despertado de um sonho que se tornaria real, Ravi ouviu da boca de seu pai o anúncio de uma viagem, ou melhor, de ...